Há uma pergunta que raramente fazemos em voz alta, talvez porque ela nos expõe mais do que gostaríamos. Não é se acreditamos em Deus, nem se rezamos, nem sequer se frequentamos a Igreja. A pergunta é mais simples e, por isso mesmo, mais desconcertante: a sua fé está a transformar a sua vida ou apenas a ajudá-lo a suportá-la?
Muitas vezes avaliamos a nossa fé a partir de sinais exteriores: práticas religiosas, participação na comunidade, fidelidade a determinados costumes. Tudo isso é importante, mas nenhuma dessas coisas, por si só, responde à pergunta essencial: a fé que professamos está a moldar as nossas escolhas, a nossa forma de viver, ou limita-se a oferecer algum alívio nos momentos difíceis?
Quando a fé se torna apenas um lugar de alívio
Muitos de nós aprendemos a viver a fé como um espaço de alívio. Um lugar onde entramos cansados, feridos, sobrecarregados, e de onde saímos um pouco mais leves. Isso não é mau. A fé consola. Sempre consolou. Cristo acolhe os cansados, aproxima-se dos feridos e promete descanso aos que estão sobrecarregados. O Evangelho está cheio de gestos de ternura, de proximidade e de misericórdia.
O problema começa quando esse consolo se torna o objectivo final, quando a fé deixa de ser caminho de conversão para se tornar apenas um refúgio emocional. Quando a fé existe apenas para aliviar, perde a sua força transformadora e passa a ser um lugar onde descansamos, mas não um caminho que nos conduz a uma vida nova.
Fé que consola e fé que converte
Há uma diferença profunda entre uma fé que consola e uma fé que converte. A primeira alivia, mas não questiona. A segunda ama, mas exige. A primeira adapta Deus à nossa vida; a segunda obriga-nos a reorganizar a vida à medida de Cristo.
É possível rezar muito e mudar pouco. É possível participar na liturgia, ouvir a Palavra, comungar e continuar a viver segundo os mesmos critérios de sempre. É possível procurar Deus apenas quando algo dói e ignorá-Lo quando Ele pede conversão. É possível invocar o Seu nome e, ao mesmo tempo, resistir silenciosamente àquilo que Ele nos quer mostrar.
Rezar sem mudar nada é um risco silencioso
É possível procurar Deus apenas nos momentos de ansiedade, de medo ou de angústia, como quem procura um calmante espiritual, e depois seguir a vida sem deixar que Ele toque nas decisões concretas, nos hábitos repetidos, nas relações feridas, nas incoerências que preferimos não enfrentar. Este risco é silencioso, porque exteriormente tudo parece em ordem.
Quando a fé se reduz a uma mera gestão emocional, Deus passa a ser um recurso e não o Senhor. Recorremos a Ele quando algo falha, mas mantemos intactas as zonas que não queremos entregar: a forma como falamos dos outros, a maneira como lidamos com o dinheiro, a fidelidade nas pequenas escolhas, o perdão sempre adiado, a conversão sempre para amanhã. A fé continua presente, mas deixa de governar.
Cristo não veio apenas tranquilizar, veio transformar
Cristo não entrou na história para nos tranquilizar apenas. Ele veio para nos refazer. O Evangelho nunca foi neutro. Quando Jesus encontra alguém, algo precisa de mudar, às vezes muda o rumo de toda uma vida, outras vezes muda um hábito silencioso, uma atitude escondida, uma escolha repetida todos os dias. Mas nunca fica tudo igual.
A verdadeira fé não se mede apenas pela intensidade das emoções religiosas, mas pela capacidade de deixar que Cristo transforme a vida concreta. Uma fé que converte começa a manifestar-se nas coisas simples e quotidianas, longe dos olhares e dos aplausos.
A transformação começa no concreto
Uma fé que converte começa a aparecer na forma como se trabalha, mesmo quando ninguém vê. Na maneira como se escuta quem pensa de forma diferente. Na coragem de cortar com aquilo que sabemos que nos afasta de Deus, mesmo quando nos traz conforto imediato. Na decisão de obedecer ao Evangelho quando ele contraria as nossas preferências pessoais.
Não se trata de grandes gestos visíveis, mas de uma fidelidade silenciosa que vai moldando o coração. A transformação cristã raramente é espectacular; é profunda, lenta e exigente.
Direcção…
Não se trata de perfeição, nem de heroísmos constantes, trata-se de direcção. Para onde está a apontar a sua fé? Para o alívio imediato ou para uma vida progressivamente configurada a Cristo?
Há uma tentação subtil em domesticar a fé, torná-la inofensiva, previsível, ajustada ao nosso ritmo, uma fé que nunca interpela dificilmente transforma. Pode consolar, sim, mas não converte.
Cristo como medida, não como acessório
Cristo não é um acessório espiritual para melhorar o nosso bem-estar. Ele é a medida da vida cristã e quando Ele se torna medida, algumas coisas precisam de sair do lugar. Algumas escolhas precisam de ser revistas, alguns silêncios precisam de ser quebrados, algumas seguranças precisam de ser entregues.
Talvez valha a pena perguntar-se com honestidade: a minha oração leva-me a mudar algo de concreto ou apenas a sentir-me melhor? Procuro Deus para ser transformado ou apenas para aliviar o peso do dia-a-dia? Se alguém observasse a minha vida de perto, conseguiria perceber que Cristo é realmente o centro das minhas decisões?
Uma pergunta que não pede resposta imediata
A fé cristã nunca foi um anestésico para a consciência. Ela é luz que quando chega, revela, aquece, mas também expõe o que precisa de ser purificado, por isso, a pergunta permanece, sem resposta fácil, sem conclusão confortável, como acontece sempre que se toca na verdade.
Que neste novo ano, nos ajude a força do Espírito Santo, para que cresçamos numa fé madura, que corresponda ao chamamento de Cristo a uma conversão verdadeira e perene.




Uma resposta
Uau, que texto!!!
Sem acusação, mas perturbador.
Um espelho para ficarmos diante e nos enxergar.
Consciente e provocador.
Obrigada.
Medida não acessório.