Porque é que o cristianismo continua a incomodar num mundo que diz aceitar tudo?

O cristianismo continua a incomodar num mundo marcado pelo relativismo

Porque é que o cristianismo continua a incomodar num mundo que diz aceitar tudo?

Vivemos num tempo que se apresenta como amplamente aberto, plural e inclusivo, no qual a diversidade é celebrada, as diferenças são valorizadas e as escolhas individuais são frequentemente elevadas à categoria de valor supremo. À primeira vista, tudo parece ter lugar, tudo parece caber, tudo parece poder coexistir sem grandes tensões. No entanto, basta que o cristianismo se manifeste de forma simples e coerente para que surja um incómodo subtil, quase silencioso, mas persistente. Não se trata de rejeição aberta, mas de um desconforto que revela um choque interior mais profundo.

O paradoxo de um mundo que aceita tudo… menos a verdade

O paradoxo é evidente: diz-se que tudo é aceite, desde que nada se afirme como verdadeiro de modo não negociável. O que incomoda não é a fé enquanto experiência íntima ou espiritualidade genérica, mas a fé enquanto caminho concreto, capaz de orientar escolhas, dar critérios e estabelecer prioridades. O cristianismo incomoda não por ser agressivo, mas por se recusar a diluir-se num relativismo onde tudo é equivalente.

Quando a verdade deixa de ser procurada e passa a ser apenas escolhida, qualquer proposta que fale de verdade como algo a acolher, e não a moldar, torna-se desconfortável.

Conversão: uma palavra simples, mas exigente

A fé cristã nasce de um convite claro à conversão, palavra antiga, mas sempre actual, que significa mudança de mentalidade, revisão de rumos e disponibilidade para deixar-se transformar. Num mundo que associa liberdade à ausência de vínculos e autenticidade à afirmação imediata do desejo, a conversão soa estranha, quase suspeita. Converter-se implica reconhecer que nem tudo o que desejo me constrói e que nem toda a escolha conduz à vida plena.

Não se trata de negar a liberdade, mas de resgatá-la de uma visão superficial que a reduz a impulso ou capricho.

O escândalo dos limites numa cultura sem fronteiras

Outro ponto sensível é a afirmação de limites. A cultura contemporânea tende a ver qualquer limite como opressão ou retrocesso, enquanto a fé cristã os compreende como fronteiras que protegem o essencial do humano. Dizer que algumas escolhas têm peso moral e que certos caminhos desumanizam provoca resistência num ambiente habituado a relativizar tudo.

Para o cristianismo, o limite não é inimigo da liberdade, mas condição para que ela não se perca. Discernir exige maturidade, e a maturidade nem sempre é confortável.

Há ainda um aspecto particularmente desconcertante: a forma como o cristianismo olha para o sofrimento. Num mundo orientado para a eficácia, para o desempenho e para a eliminação rápida da dor, a cruz permanece como um sinal incómodo. A fé cristã não glorifica o sofrimento nem o procura, mas recusa-se a considerá-lo inútil ou absurdo.

Ao oferecer sentido onde muitos preferem apenas anestesia, o cristianismo impede a fuga fácil e convida à profundidade. A fragilidade humana não é negada, mas atravessada com esperança.

Intolerância ou clareza serena?

É essencial distinguir intolerância de clareza serena. A intolerância impõe-se, fecha-se ao diálogo e desqualifica o outro; a clareza serena sabe no que acredita e não precisa de gritar para se afirmar. O cristianismo, quando vivido de forma autêntica, não se apresenta como arma cultural, mas como proposta exigente dirigida à liberdade de cada pessoa.

Cristo não força adesões; chama. E esse chamamento respeita até mesmo a recusa.

Talvez Jesus continue a incomodar porque não se encaixa nas categorias cómodas do nosso tempo. Ele não confirma automaticamente as nossas escolhas nem adapta a verdade às nossas conveniências. A sua proposta atravessa a vida concreta: o modo como se trabalha, como se usam os bens, como se tratam as pessoas, como se perdoa, como se aceita o silêncio e como se vive a fidelidade quotidiana.

A fé cristã não acusa, mas revela; não humilha, mas cura. E essa revelação interior nem sempre é confortável.

Quando a fé deixa de ser decorativa

No trabalho, o cristianismo desafia tanto a ambição sem limites como a indiferença ética; nas escolhas pessoais, recorda que os actos constroem a pessoa que nos tornamos; no perdão, propõe um caminho difícil e libertador; no silêncio, lembra que nem tudo precisa de ser dito ou exibido.

Uma fé que não toca a vida concreta corre o risco de se tornar irrelevante. O incómodo nasce quando a fé deixa de ser apenas simbólica e passa a ser vivida.

Interpretar este incómodo como fracasso seria um erro. Uma fé que não provoca perguntas, que não gera tensão interior nem convida à conversão, arrisca-se a perder a sua força transformadora. O cristianismo nunca foi chamado a dissolver-se no ambiente, mas a ser fermento, actuando de dentro, silenciosamente.

O incómodo não é sinal de decadência, mas de vida. Num mundo que diz aceitar tudo, a fé cristã recorda que a verdadeira aceitação não elimina a verdade, mas caminha com ela. E talvez seja precisamente essa fidelidade serena à verdade que continua, ainda hoje, a incomodar. E a despertar.

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