A mansidão como remédio para a cólera: a receita de São Francisco de Sales

São Francisco de Sales e a mansidão como virtude cristã

A mansidão como remédio para a cólera: a receita de São Francisco de Sales

Entre as virtudes cristãs, poucas são tão mal compreendidas como a mansidão. Muitas vezes confundida com passividade, fraqueza ou falta de personalidade, ela é, na realidade, uma das expressões mais elevadas da força interior. A tradição espiritual da Igreja sempre a apresentou como fruto de um trabalho profundo da graça, que não apaga o temperamento humano, mas o purifica e o orienta para o amor. É neste horizonte que se inscreve o testemunho luminoso de São Francisco de Sales, Doutor da Igreja, conhecido ao longo dos séculos como o “santo da doçura”.

A sua fama de mansidão não nasceu de um carácter naturalmente calmo ou de uma disposição psicológica tranquila. Pelo contrário, os testemunhos históricos revelam que Francisco de Sales possuía um temperamento inclinado à cólera, com impulsos fortes e reacções intensas. A sua mansidão não foi um ponto de partida, mas um ponto de chegada. Foi fruto de uma conversão lenta, consciente e perseverante, na qual a graça de Deus actuou sem violentar a sua personalidade, mas educando-a.

Desde jovem, Francisco tomou consciência de que a ira desgovernada não apenas feria as relações humanas, mas obscurecia a escuta de Deus e enfraquecia o testemunho cristão. Essa lucidez não o conduziu ao desânimo, mas a uma decisão firme: permitir que o Evangelho moldasse o seu coração. A santidade, para ele, nunca significou negar quem se é, mas permitir que Cristo transforme aquilo que, em nós, resiste ao amor.

Uma conversão interior trabalhada com paciência

A transição espiritual e psicológica de São Francisco de Sales não aconteceu de forma imediata. Ele próprio reconhecia que a mansidão não se conquista pela força, pois a violência exercida contra si mesmo apenas gera novas tensões interiores. Por isso, ensinava que o primeiro passo é a humildade, isto é, reconhecer as próprias fragilidades sem escândalo e sem dureza, colocando-as diante de Deus com confiança.

Quando percebia a cólera a emergir, Francisco recomendava não agir de imediato, não responder sob o impulso da emoção e não tomar decisões precipitadas. A sua experiência ensinara-lhe que agir no auge da ira quase nunca produz frutos de justiça. A mansidão, neste sentido, é uma arte espiritual, um governo interior que sabe esperar, silenciar e recolher o coração diante do Senhor.

Outro elemento essencial da sua “receita” era a doçura consigo mesmo. São Francisco de Sales advertia que muitos cristãos, ao lutarem contra os próprios defeitos, se tornam impacientes, severos e até agressivos consigo próprios. Para ele, não há verdadeira conversão sem paciência para com a própria imperfeição, porque a mudança duradoura nasce do amor e não do medo nem da autoacusação.

Mansidão é força governada pelo Evangelho

A espiritualidade salesiana mostra que a mansidão não elimina a firmeza, mas purifica a forma de a exercer. Como bispo de Genebra, num contexto marcado por profundas tensões religiosas, São Francisco de Sales recusou a agressividade verbal, a imposição forçada da fé e o confronto estéril. Optou pela persuasão paciente, pelo diálogo respeitoso e pelo testemunho coerente de vida.

Essa escolha não nascia de relativismo doutrinal, mas de uma convicção profundamente evangélica. Ele acreditava que o coração humano se abre mais facilmente pela mansidão do que pela violência, e que a verdade, quando é imposta, deixa de ser verdade acolhida. Muitos regressaram à fé não por discursos duros, mas pelo contacto com a sua serenidade, pela constância do seu cuidado pastoral e pela firmeza tranquila com que anunciava o Evangelho.

A história da Igreja confirma essa pedagogia espiritual. São João Bosco, apesar do temperamento enérgico, escolheu educar os jovens pela amabilidade; Santa Teresa do Menino Jesus ensinou que a mansidão começa nas pequenas renúncias quotidianas; e São José, com o seu silêncio fiel, permanece como modelo de força interior governada pela confiança em Deus.

Uma proposta actual para um mundo marcado pela agressividade

Num mundo dominado pela reacção imediata, pela agressividade verbal e pela polarização constante, a proposta de São Francisco de Sales revela-se profundamente actual. Ele recorda-nos que a cólera não se cura com mais cólera, mas com um coração educado pela paciência, pelo silêncio e pela oração. A mansidão não elimina o conflito, mas transforma a forma de o atravessar.

Para a vida concreta, o santo oferece indicações simples e exigentes: vigiar os primeiros movimentos do coração, evitar decisões tomadas sob impulso, cultivar a oração diária, cuidar da linguagem, exercitar a doçura nas relações e aceitar as próprias quedas sem desespero. Trata-se de um caminho lento, mas libertador, no qual a graça actua à medida que o coração se deixa formar.

No fim, a mansidão não é apenas um remédio psicológico, mas um sinal de maturidade espiritual. Em São Francisco de Sales, ela tornou-se testemunho vivo de que o Evangelho é capaz de transformar o temperamento humano sem o anular, fazendo daquilo que era fonte de desordem interior um instrumento de paz. A sua vida recorda-nos que a verdadeira força cristã não está em dominar os outros, mas em aprender, com humildade, a governar o próprio coração.

São Francisco de Sales, rogai por nós!

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