Cristo Redentor e a consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus

Cristo Redentor no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro, com os braços abertos.

Cristo Redentor e a consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus

Na série dedicada aos países consagrados ao Sagrado Coração de Jesus, já conhecemos histórias como as do Equador e da Irlanda. Chegamos agora ao Brasil, onde essa entrega ficou ligada ao Cristo Redentor. Para o Santuário de Cristo Rei, esta história tem uma proximidade especial: os dois Santuários estão geminados desde 2009.

No dia 12 de Outubro de 1931, milhares de pessoas voltaram os olhos para o alto do Corcovado, no Rio de Janeiro. Ali, a mais de 700 metros de altitude, era inaugurado um monumento que se tornaria uma das imagens mais reconhecidas do Brasil em todo o mundo: o Cristo Redentor.

Aquela cerimónia, porém, representava muito mais do que a inauguração de uma obra monumental. Naquele mesmo dia, diante da imagem de Cristo com os braços abertos sobre a então capital brasileira, teve lugar a solene consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus.

O acontecimento permite compreender o Cristo Redentor a partir de uma dimensão que, muitas vezes, passa despercebida nas fotografias turísticas: no coração do monumento está, literalmente, o Coração de Cristo.

O coração esculpido no Cristo Redentor

A construção do Cristo Redentor decorreu ao longo da década de 1920 e ficou concluída em 1931. O projecto teve como figura central o engenheiro brasileiro Heitor da Silva Costa e contou com importantes contribuições artísticas e técnicas até chegar à forma que hoje conhecemos. Um detalhe, contudo, merece especial atenção.

Em 1929, o então Arcebispo do Rio de Janeiro, D. Sebastião Leme, pediu que fosse moldado um coração no peito da estátua. O próprio Santuário Cristo Redentor recorda que esta decisão fez do monumento uma imagem estilizada do Sagrado Coração de Jesus.

O coração existe verdadeiramente na estrutura da imagem. Não se trata, portanto, apenas de uma interpretação devocional posterior. Desde a sua construção, havia a intenção de relacionar aquele Cristo que contempla a cidade com a espiritualidade do seu Coração.

Era uma mensagem particularmente significativa numa época em que a devoção ao Sagrado Coração se encontrava fortemente difundida entre os católicos, nas famílias, nas paróquias e nas associações religiosas.

No alto do Corcovado, essa devoção ganharia proporções nacionais.

A inauguração do Cristo Redentor em 1931

A escolha da data também tinha um significado especial. O monumento foi inaugurado a 12 de Outubro, dia dedicado a Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil. As obras tinham começado anos antes e, concluído o monumento, essa data foi escolhida para a grande celebração.

O Brasil atravessava então um período de profundas mudanças. Getúlio Vargas tinha chegado ao poder no ano anterior, após a Revolução de 1930, e governava o país provisoriamente. A relação entre a presença pública do catolicismo e a sociedade brasileira passava também por um período de reorganização.

Foi neste contexto que a inauguração do Cristo Redentor adquiriu uma força que ultrapassava a arquitectura.

D. Sebastião Leme, uma das figuras mais influentes da Igreja Católica brasileira naquele período, via no monumento uma afirmação pública da fé cristã e da presença de Cristo na vida do povo.

As celebrações não se limitaram ao momento da inauguração. O acontecimento fora preparado por um amplo programa religioso, conhecido como Semana Nacional do Cristo Redentor, que reuniu bispos, sacerdotes, movimentos católicos e milhares de fiéis.

No dia 12, o monumento foi solenemente abençoado e inaugurado. Entre os presentes encontrava-se também Getúlio Vargas, chefe do Governo Provisório. Registos históricos da época mostram a dimensão nacional atribuída à cerimónia.

A consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus

Foi nesse contexto que D. Sebastião Leme realizou o acto de consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus.

O gesto colocou espiritualmente o país sob o senhorio de Cristo e confiou ao seu Coração o povo brasileiro, as suas famílias, as suas dificuldades e o seu futuro.

Como recorda o Vatican News, o Cardeal proclamou:

«Cristo vence, Cristo reina, Cristo impera. Cristo proteja o Brasil contra todos os males.»

É difícil separar esta consagração da imagem que se erguia sobre o Corcovado. A imagem de Cristo tinha os braços abertos, como num gesto de acolhimento e bênção, mas trazia também no peito aquele coração pedido por D. Sebastião Leme.

Assim, o monumento podia ser contemplado como uma verdadeira entronização pública do Coração de Jesus sobre a então capital do país.

Décadas mais tarde, esta ligação continuaria presente na memória da Igreja brasileira. Em 2020, durante a pandemia de Covid-19, o Cardeal Orani João Tempesta, Arcebispo do Rio de Janeiro, renovou aos pés do Cristo Redentor a consagração do Brasil ao Sagrado Coração de Jesus, recordando expressamente o acto realizado em 1931 pelo seu predecessor.

A geminação entre Cristo Rei e Cristo Redentor

Esta ligação faz parte da história de Cristo Rei. Em 1934, ao contemplar o Cristo Redentor, o Cardeal D. Manuel Gonçalves Cerejeira concebeu o desejo de erguer em Portugal um Santuário dedicado ao Sagrado Coração de Jesus. Daquela inspiração nasceu o projecto de Cristo Rei, em Almada.

A geminação entre o Santuário de Cristo Rei e o Santuário Cristo Redentor foi formalizada em 2009. O documento foi assinado em Almada, a 17 de Maio de 2009, durante as celebrações do cinquentenário de Cristo Rei, e a geminação foi concluída no Rio de Janeiro, a 12 de Outubro de 2009. Esta ligação promove a partilha de experiências e de espiritualidade e incentiva as peregrinações entre os dois Santuários.

Ao conhecer a história do Santuário irmão do Brasil, reconhecemos também uma parte das raízes do nosso próprio Santuário.

Composição de duas fotografias dos actos de geminação entre os Santuários de Cristo Rei e Cristo Redentor, em Portugal e no Brasil.
Dois Santuários, uma ligação de fé. Actos de geminação em Almada, a 17 de Maio, e no Rio de Janeiro, a 12 de Outubro de 2009.

Um Coração voltado para um país inteiro

Há ainda uma particularidade profundamente simbólica no Cristo Redentor: o coração esculpido no seu peito é praticamente invisível para quem observa o monumento à distância.

Talvez isso ajude a compreender a mensagem que permanece depois de quase um século.

O mundo inteiro conhece aqueles braços abertos. Milhões de pessoas reconhecem imediatamente a silhueta do Cristo sobre o Rio de Janeiro. Contudo, no centro daquele corpo monumental existe um coração.

Para a fé cristã, este pormenor muda a forma de olhar para o monumento.

O Cristo do Corcovado não se limita a vigiar uma cidade do alto. A sua imagem aponta para Aquele que ama, acolhe, perdoa e oferece a própria vida pela humanidade.

Foi precisamente a esse Coração que o Brasil foi confiado naquele 12 de Outubro de 1931.

Por isso, conhecer a história religiosa do Cristo Redentor é redescobrir que um dos maiores símbolos brasileiros nasceu marcado por uma profissão de fé: sobre o Brasil encontram-se os braços abertos de Cristo e, entre esses braços, o seu Sagrado Coração.

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