Preparar o Caminho do Senhor: a missão silenciosa e primordial de João Baptista

São João Baptista prepara o caminho do Senhor junto ao rio Jordão

Preparar o Caminho do Senhor: a missão silenciosa e primordial de João Baptista

No dia 24 de Junho, a Igreja celebra a Natividade de São João Baptista, aquele que a Tradição reconhece como o Precursor do Senhor. A sua missão foi única na história da salvação: não veio ocupar o centro, mas apontar para Cristo.

O nascimento de João Baptista é marcado por sinais de graça. O Evangelho segundo São Lucas apresenta-o como filho de Zacarias e Isabel, ambos justos diante de Deus, mas marcados pela esterilidade e pela idade avançada. A sua concepção manifesta que a salvação não nasce apenas das forças humanas, mas da iniciativa de Deus. O anjo Gabriel anuncia a Zacarias: «Terás alegria e regozijo, e muitos se alegrarão com o seu nascimento, porque será grande diante do Senhor» (Lc 1, 14-15).

Antes ainda de nascer, João já participa misteriosamente da missão de Cristo. Quando Maria visita Isabel, levando no seu seio o Verbo Encarnado, o menino exulta no ventre da sua mãe. Isabel, cheia do Espírito Santo, proclama: «Logo que chegou aos meus ouvidos a voz da tua saudação, o menino exultou de alegria no meu seio» (Lc 1, 44).

O profeta que prepara o povo para Deus

A missão de João foi anunciada pelos profetas. Isaías fala de uma voz que clama no deserto: «Preparai o caminho do Senhor, endireitai as suas veredas» (Is 40, 3). Esta profecia encontra em João Baptista a sua realização. Ele surge no deserto, revestido de austeridade, chamando o povo à conversão e ao arrependimento.

O deserto, na Bíblia, é lugar de provação, de escuta e de purificação. Ali, longe do ruído das cidades e das seguranças humanas, João proclama uma mensagem clara: «Arrependei-vos, porque está próximo o Reino dos Céus» (Mt 3, 2). O seu baptismo nas águas do Jordão não era ainda o Baptismo sacramental instituído por Cristo, mas um sinal de penitência, de desejo de conversão e de preparação interior para acolher o Messias.

Bento XVI recordava que o cântico de Zacarias, o Benedictus, «indica profeticamente a missão do seu filho João: preceder o Filho de Deus feito carne para preparar os seus caminhos» (Audiência Geral, 29 de Agosto de 2012). Assim, a missão de João não se compreende isoladamente, mas sempre em relação a Cristo: ele existe para abrir passagem ao Salvador.

A grandeza de quem sabe diminuir

A grandeza de João Baptista está profundamente ligada à sua humildade. Ele sabe quem é e, sobretudo, sabe quem não é. Quando o interrogam sobre a sua identidade, responde: «Eu não sou o Cristo» (Jo 1, 20). E, diante d’Aquele que vem depois dele, declara: «Eu não sou digno de Lhe desatar a correia das sandálias» (Jo 1, 27).

Esta humildade atinge o seu ponto mais luminoso quando João vê Jesus aproximar-se e proclama: «Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo» (Jo 1, 29). Com esta frase, ele resume a missão redentora de Cristo. Jesus não é apenas um mestre, um profeta ou um reformador religioso. Ele é o Cordeiro oferecido pela salvação da humanidade, Aquele que carrega sobre Si o pecado do mundo e o vence com o amor.

João Baptista ensina uma das leis mais profundas da vida cristã: quem ama verdadeiramente Cristo não procura ocupar o lugar que pertence ao Senhor. Por isso, diante do crescimento da missão de Jesus, ele afirma: «Ele é que deve crescer, e eu diminuir» (Jo 3, 30). Esta frase é um programa espiritual para todos os discípulos. A vida cristã amadurece quando Cristo cresce em nós e o nosso orgulho, a nossa vaidade e a nossa auto-suficiência diminuem.

Uma missão silenciosa, mas primordial

A missão de João Baptista pode parecer discreta quando comparada com os grandes acontecimentos públicos da vida de Jesus. João não realiza a redenção, não institui a Eucaristia, não morre na cruz nem ressuscita ao terceiro dia. No entanto, a sua missão é primordial, porque prepara os corações para reconhecerem o Salvador.

Ele é a ponte entre a Antiga e a Nova Aliança. Nele convergem as promessas dos profetas e inicia-se a manifestação plena do Messias esperado por Israel. É o último dos profetas e o primeiro a apontar directamente para Cristo já presente no meio do povo. Por isso, Jesus diz a seu respeito: «Entre os nascidos de mulher, não apareceu ninguém maior do que João Baptista» (Mt 11, 11). A grandeza de João não está no poder, no prestígio ou na visibilidade. Está na fidelidade absoluta à missão recebida.

Num mundo marcado pelo desejo de reconhecimento, João Baptista é uma escola de liberdade interior. Ele não compete com Cristo, não se apropria da missão, não transforma o dom recebido em ocasião de vaidade. A sua alegria está em ver o Esposo chegar. Ele mesmo afirma: «O amigo do esposo, que está presente e o escuta, alegra-se muito com a voz do esposo. Pois esta minha alegria está completa» (Jo 3, 29).

Preparar hoje o caminho do Senhor

Celebrar a Natividade de São João Baptista é recordar que também nós somos chamados a preparar o caminho do Senhor. Esta missão continua na Igreja, nas famílias, nas comunidades e no coração de cada baptizado. Preparar o caminho de Cristo significa criar espaço para que Ele seja conhecido, amado e acolhido.

Muitas vezes, esta missão realiza-se no silêncio. Uma palavra de fé dita com simplicidade, uma vida coerente, uma oração escondida, um gesto de caridade e um testemunho humilde podem abrir caminhos para Deus no coração de alguém. Nem sempre veremos os frutos. João Baptista também não procurou controlar os frutos da sua missão. Ele anunciou, apontou e entregou.

João Baptista continua a dirigir à Igreja e ao mundo o mesmo apelo: «Preparai o caminho do Senhor». Que, pela sua intercessão, aprendamos também a diminuir para que Cristo cresça, e a viver com a alegria humilde de quem prepara, no coração dos homens, a chegada do Salvador.

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