Nascida em Münster, na Alemanha, a 8 de Setembro de 1863, Maria Droste zu Vischering pertencia a uma família nobre, profundamente fiel à Igreja num período particularmente difícil para os católicos alemães.
A sua vida não pode ser compreendida apenas a partir do sofrimento que enfrentou, nem somente através da missão que a ligou à consagração do género humano ao Sagrado Coração de Jesus. Estas realidades encontram-se unidas numa mesma vocação: amar, reparar e oferecer-se com Cristo pelo bem da Igreja e pela salvação das almas.
Na oração, no serviço às jovens confiadas às Irmãs do Bom Pastor e na aceitação da doença, a Beata Maria do Divino Coração fez da própria vida uma resposta ao amor de Jesus.
O que é a espiritualidade da reparação
A espiritualidade da reparação nasce de uma verdade central da fé cristã: Deus ama o homem com um amor perfeito, mas esse amor é frequentemente recusado através do pecado, da indiferença, da ingratidão e de tudo aquilo que fere a dignidade dos filhos de Deus.
Reparar não significa acrescentar alguma coisa à Redenção realizada por Cristo. A oferta de Jesus na cruz é perfeita e suficiente. Pela sua morte e ressurreição, Cristo reconciliou a humanidade com o Pai.
A reparação cristã consiste em unir-se a esta oferta de Cristo, acolhendo o seu amor e permitindo que esse amor transforme a própria vida.
Reparar é responder ao amor recusado com fidelidade. É permanecer junto de Cristo quando muitos O esquecem. É permitir que a graça transforme a oração, o sofrimento, o trabalho e o serviço aos outros numa oferta de amor.
Responder com amor ao Coração de Cristo
A Beata Maria do Divino Coração tornou-se uma verdadeira mestra desta espiritualidade.
A sua reparação não foi uma ideia abstracta nem uma prática separada da vida quotidiana. Viveu-a na oração, na Eucaristia, no governo da comunidade, na atenção às jovens acolhidas pelo Bom Pastor e no modo como enfrentou a doença.
O sofrimento que progressivamente a imobilizou não a fechou sobre si mesma. Pelo contrário, tornou-se lugar de uma união mais profunda com o Coração de Jesus. A sua vida mostra que a reparação cristã não nasce de uma tristeza estéril ou de uma visão negativa do mundo. Nasce de um amor que deseja consolar o Senhor, interceder pelos irmãos e colaborar na cura das feridas da Igreja e da humanidade.
A consagração ao Sagrado Coração de Jesus
Na tradição da Igreja, a devoção ao Sagrado Coração encontra-se profundamente ligada à consagração e à reparação.
Pela consagração, o cristão reconhece que pertence a Cristo e oferece-Lhe tudo aquilo que é e possui. Entrega-Lhe a inteligência, a vontade, os afectos, o trabalho, as alegrias, as dificuldades e toda a sua existência.
A reparação nasce como consequência desta entrega. Quem se consagra ao Coração de Jesus deseja amar onde existe indiferença, adorar onde existe esquecimento, agradecer onde existe ingratidão e permanecer fiel onde o amor de Deus é recusado.
Na vida da Beata Maria do Divino Coração, esta dimensão manifestou-se com particular intensidade. A sua missão ficou estreitamente ligada à consagração do género humano ao Sagrado Coração de Jesus, realizada pelo Papa Leão XIII em 1899.
Antes da sua morte, manifestou também o desejo de que a casa do Bom Pastor fosse um lugar consagrado ao Sagrado Coração: um lugar de reparação, de graças e de oração, especialmente pelos sacerdotes e em reparação dos sacrilégios.
Como viver a reparação
Para a Beata Maria do Divino Coração, reparar era uma forma concreta de amar.
A reparação começa no íntimo da alma, quando o cristão decide não viver de qualquer maneira, mas fazer da própria existência uma resposta ao amor de Cristo.
Pode viver-se através da adoração eucarística, da participação consciente na Santa Missa, da comunhão bem preparada, da confissão frequente, da oração pelos sacerdotes, dos actos de penitência, do oferecimento dos sofrimentos e da caridade para com os mais frágeis.
Na vida da Beata Maria, a reparação passou também pelo serviço às jovens acolhidas pelo Bom Pastor. Ao cuidar das que se encontravam feridas, exploradas ou abandonadas, procurava tornar presente a misericórdia do Coração de Jesus.
Por isso, reparar não consiste apenas em lamentar os pecados do mundo. A verdadeira reparação conduz à conversão e à caridade.
É amar onde existe indiferença.
É adorar onde existe esquecimento.
É perdoar onde existem feridas.
É servir onde existe abandono.
É reconciliar onde existem divisões.
É permanecer fiel quando tantos se afastam do Senhor.
Cada cristão pode tornar-se, no quotidiano, um pequeno lugar de reparação, onde o Coração de Jesus seja acolhido, amado e correspondido.
O sofrimento oferecido como lugar de reparação
A Beata Maria do Divino Coração viveu esta entrega até ao fim.
No Porto, longe da sua terra natal e progressivamente debilitada pela doença, não deixou de se sentir enviada. A enfermidade limitou os seus movimentos, mas não interrompeu a sua missão.
O seu leito tornou-se altar.
A sua dor tornou-se oração.
A sua fraqueza tornou-se oferta.
O sofrimento, quando unido a Cristo, não deixa de ser sofrimento. Contudo, pode adquirir um sentido novo. Entregue ao Senhor, torna-se oração, intercessão e participação no seu amor redentor.
A vida da Beata Maria mostra-nos, assim, que a reparação não é apenas uma prática devocional. É uma forma de existência cristã: viver unido ao Coração de Jesus e permitir que Ele transforme as nossas feridas em oferta de amor.
Uma espiritualidade actual para a Igreja
Num tempo em que tantas feridas atingem a Igreja, as famílias e o mundo, a espiritualidade da Beata Maria do Divino Coração permanece profundamente actual.
Não se trata de uma espiritualidade triste, fechada no sofrimento ou dominada pelo medo. É uma espiritualidade esperançosa, porque nasce da certeza de que o Coração de Jesus permanece aberto, vivo e cheio de misericórdia.
A reparação começa quando deixamos de olhar apenas para a nossa própria dor e permitimos que ela seja tocada pelo amor de Cristo. Então, até aquilo que parecia inútil pode tornar-se fecundo.
O coração humano, unido ao Coração trespassado de Jesus, pode tornar-se um lugar de oração, de misericórdia, de reconciliação e de graça para o mundo.
Que o exemplo da Beata Maria do Divino Coração nos ajude a redescobrir a força da reparação: amar com mais fidelidade, rezar com confiança, oferecer a vida com fé e tornar presente a misericórdia de Cristo nas pequenas escolhas de cada dia.
Procuremos viver esta espiritualidade com simplicidade e confiança, fazendo da nossa vida uma resposta concreta ao amor de Cristo.



