Quem ficou para trás? Beata Maria do Divino Coração e o Bom Pastor

Beata Maria do Divino Coração aproxima-se de uma jovem isolada num convento do Bom Pastor no final do século XIX

Quem ficou para trás? Beata Maria do Divino Coração e o Bom Pastor

A Beata Maria do Divino Coração encontrou na parábola da ovelha perdida uma imagem precisa do amor de Deus. Jesus pergunta quem deixaria noventa e nove ovelhas para procurar a que se perdeu «até a encontrar» (cf. Lc 15,4). A pergunta permanece: quem ficou para trás?

Esta atenção a cada pessoa marcou profundamente a sua espiritualidade. Como religiosa da Congregação de Nossa Senhora da Caridade do Bom Pastor, Maria encontrou no nome da sua família religiosa um programa de vida: aprender de Jesus a procurar, acolher e amar quem podia ser esquecido.

Jesus diz no Evangelho: «Eu sou o Bom Pastor. Conheço as minhas ovelhas e as minhas ovelhas conhecem-Me» (Jo 10,14). No coração de Cristo, ninguém é anónimo. Cada pessoa tem um nome e uma história, e a sua dignidade não desaparece por causa do sofrimento ou das escolhas que fez.

A Beata Maria do Divino Coração e as jovens esquecidas

Esta forma de amar tornou-se particularmente visível na relação da Beata Maria com as jovens confiadas às religiosas do Bom Pastor.

Na biografia oficial publicada pela Congregação, conserva-se uma frase da Beata: «As mais necessitadas, as mais miseráveis, as mais abandonadas são as filhas que mais amo» (tradução livre).

Estas palavras correspondem ao trabalho que lhe foi confiado. A missão do Bom Pastor colocava-a em contacto com jovens marcadas pela pobreza, pela rejeição e por histórias pessoais difíceis. Maria procurava conhecer a pessoa antes de a reduzir ao seu problema.

A Conferência Episcopal Portuguesa recorda que, no Porto, ela se dedicou «de alma e coração» às jovens acolhidas pela Congregação. A mesma nota pastoral resume a sua vida em duas grandes paixões: Jesus e os pobres, especialmente as jovens por quem trabalhou com dedicação total.

É neste serviço que se compreende o seu zelo pelas almas.

A expressão pode soar distante. Para a Beata Maria, porém, uma «alma» era uma pessoa concreta: uma jovem que sofria, precisava de ser escutada ou já tinha sido julgada por outros. Ter zelo pelas almas significava desejar que nenhuma delas se perdesse do amor de Cristo.

Procurar quem parece mais longe

Na parábola, a ovelha perdida não regressa sozinha. O pastor parte à sua procura.

É mais fácil cuidar de quem permanece perto, corresponde às expectativas ou aceita prontamente o que lhe oferecemos. O coração do Bom Pastor leva-nos também até à pessoa difícil, ferida ou aparentemente indiferente.

A espiritualidade vivida pela Beata Maria dava forma concreta a esta perseverança. A jovem mais difícil continuava a merecer o mesmo cuidado e a paciência necessária, mesmo quando parecia distante.

A Congregação recorda que Maria tinha um amor intenso pelo apostolado junto dos jovens. Mais tarde, no Porto, o seu serviço chegou a pessoas de diferentes condições, entre pobres e ricos, leigos e membros do clero.

Nisto reconhecemos as palavras de Jesus: «Tenho ainda outras ovelhas que não são deste aprisco e também tenho de as conduzir» (Jo 10,16). O coração do Pastor permanece aberto a quem ainda falta.

O perigo de nos habituarmos às ausências

Esta espiritualidade coloca uma pergunta muito actual às comunidades cristãs.

Nas comunidades, é possível habituarmo-nos aos mesmos rostos na Missa, aos mesmos voluntários, às mesmas famílias e aos mesmos jovens nos grupos. Com o tempo, deixamos de perguntar por quem já não aparece.

Quem deixou de vir depois de uma ferida? Quem entrou uma vez na igreja e não foi acolhido? Que jovem atravessa uma situação difícil sem que ninguém tenha reparado?

O zelo pelas almas começa quando se repara numa ausência. O Bom Pastor não Se conforma com a falta de uma ovelha por ainda ter noventa e nove. Enquanto alguém estiver longe, permanece o dever de procurar.

O Bom Pastor na vida da Beata Maria do Divino Coração

A devoção ao Coração de Jesus levou a Beata Maria ao cuidado das pessoas. Na sua espiritualidade da reparação, a oração sustentava o serviço diário. Ao aproximar-se de Cristo, aprendeu a olhar os outros com mais atenção.

Por isso, a pergunta concreta é simples: quem precisa do nosso cuidado?

Na família, na paróquia, no trabalho ou entre amigos, alguém pode acabar à margem sem fazer ruído. Nem todos conseguem pedir ajuda. Seguir Jesus Bom Pastor exige atenção a estes sinais.

A Beata Maria do Divino Coração encontrou alegria em aproximar-se de quem precisava de ajuda e em confiar cada vida à misericórdia de Deus.

No Santuário de Cristo Rei, as suas relíquias encontram-se na Capela dos Confidentes do Sagrado Coração de Jesus.

Diante do testemunho da Beata Maria do Divino Coração, podemos rezar: «Senhor, mostra-me quem ficou para trás e dá-me coragem para ir ao seu encontro.»

Beata Maria do Divino Coração, rogai por nós!

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