Em 2026, celebramos os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis. Ao anoitecer de 3 de Outubro de 1226, o santo terminou a sua peregrinação terrena junto da Porciúncula, lugar tão importante na sua história. Muito doente, quase cego e marcado no próprio corpo pelos estigmas da Paixão de Cristo, pedira para ser levado para ali, onde viveu os seus últimos momentos e se entregou definitivamente a Deus.
A tradição franciscana chama a este momento o Trânsito de São Francisco, a sua passagem desta vida para a eternidade. Celebrar este centenário é voltar à história do «Pobrezinho de Assis» e escutar aquilo que ele ainda tem para nos ensinar.
Na sua carta por ocasião do VIII centenário da morte de São Francisco, o Papa Leão XIV destaca a actualidade da sua mensagem de paz e da sua fidelidade ao Evangelho.
Francisco viveu de tal maneira o Evangelho que, oito séculos depois, as suas palavras continuam desconfortavelmente actuais. Que ensinamentos nos deixa?
Viver o Evangelho com São Francisco de Assis
No seu Testamento, escrito já perto da morte, Francisco recorda o início da sua vocação e afirma que foi o próprio Deus quem lhe mostrou o caminho:
«O Altíssimo mesmo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho.» (Testamento, 14.)
Esta talvez seja a melhor síntese de toda a sua vida. Francisco queria viver segundo o Evangelho, deixando que a Palavra orientasse as suas decisões.
Nos Fioretti, uma recolha posterior de narrativas sobre Francisco e os seus companheiros, esta mesma disposição aparece no episódio da conversão de Bernardo. Depois de escutarem passagens evangélicas sobre deixar tudo e seguir Cristo, Francisco diz-lhe:
«Eis o conselho que Cristo nos dá.» (Fioretti, capítulo II.)
A pergunta permanece actual. Quantas vezes escutamos o Evangelho, meditamos a Palavra de Deus e até nos emocionamos com ela, mas continuamos exactamente iguais?
Francisco recorda-nos que a Palavra pede consequências. Precisa de chegar ao nosso dinheiro, às relações, às escolhas, ao perdão, à maneira como trabalhamos e tratamos os outros.
Essa vontade de tornar o Evangelho próximo da vida encontra-se também na devoção de São Francisco ao presépio, que o Santuário já recordou a propósito de Greccio.
A conversão começa quando nos aproximamos de quem evitaríamos
Francisco também deixou no Testamento uma das mais belas descrições da sua conversão. Antes, tinha profunda repulsa pelos leprosos. Depois, algo mudou: reconheceu que o Senhor o conduzira para o meio deles e que, ali, exercera a misericórdia (Testamento, 1–3).
E acrescenta que aquilo que antes lhe parecia amargo se transformou em doçura. É um dos episódios mais importantes para compreender Francisco.
A conversão começou quando ele deixou de olhar de longe e se aproximou.
Também nós podemos escolher quem queremos manter à distância: o pobre, o doente, o incómodo, a pessoa com quem é difícil conviver, aquele que ninguém parece querer por perto.
Francisco ensina que, muitas vezes, Cristo espera-nos precisamente no rosto que preferíamos evitar.
Esta proximidade aos que ficam à margem ajuda-nos também a compreender o cuidado do Bom Pastor na vida da Beata Maria do Divino Coração, cujo serviço às jovens marcou a sua entrega ao Coração de Jesus.
É possível viver com menos e ser mais livre
A pobreza franciscana nunca foi simplesmente desprezo pelos bens materiais. Francisco desejava uma liberdade interior tão profunda que nada pudesse ocupar no seu coração o lugar que pertencia a Deus.
Por isso, uma das suas Admoestações ensina:
«Onde a pobreza se une à alegria, não há cobiça nem avareza.» (Admoestações, XXVII, 3.)
Esta frase parece ter sido escrita para o nosso tempo.
Somos constantemente convidados a comprar, possuir, acumular, trocar e desejar mais. Francisco propõe outro caminho: descobrir o suficiente.
A pobreza evangélica ensina-nos a possuir sem sermos possuídos, a agradecer aquilo que temos e a reconhecer que os bens recebidos podem tornar-se também instrumentos de partilha.
A verdadeira alegria não depende de tudo correr bem
Um dos episódios mais conhecidos dos Fioretti é o diálogo entre Francisco e Frei Leão sobre a perfeita alegria (Fioretti, capítulo VIII).
Francisco enumera grandes feitos: realizar milagres, conhecer as ciências, falar línguas, converter multidões. Em nenhum deles, diz ele, está a perfeita alegria.
Depois apresenta uma situação extrema: chegar ao convento cansado, molhado e com fome e ser rejeitado pelos próprios irmãos. Se, mesmo assim, fossem capazes de suportar aquilo sem perder a paz e o amor, então haveria ali perfeita alegria.
No final da narrativa, Francisco apresenta a capacidade de vencer a si mesmo e de suportar as contrariedades por amor de Cristo como um dom maior do que os feitos extraordinários.
Os Fioretti não foram escritos pelo próprio Francisco, mas esta narrativa tornou-se uma das grandes expressões da espiritualidade franciscana.
A alegria cristã pode sobreviver à frustração, à incompreensão e ao sofrimento porque está enraizada em Cristo.
A paz começa dentro de nós
Outra Admoestação de Francisco afirma:
«Onde há paciência e humildade, não há ira nem perturbação.» (Admoestações, XXVII, 2.)
Francisco tornou-se universalmente associado à paz, mas a paz franciscana começa no coração.
Antes de tentar pacificar o mundo, é preciso perceber o que fazemos com as pequenas guerras que surgem dentro de casa, no trabalho, nas comunidades cristãs e até nas redes sociais.
Somos capazes de discordar sem destruir? De corrigir sem humilhar? De perdoar? De dar o primeiro passo?
A paz constrói-se também nestas escolhas diárias.
Somos irmãos porque tudo vem do mesmo Criador
No final da vida, profundamente debilitado, Francisco compôs o Cântico das Criaturas, também conhecido como Cântico do Irmão Sol. Nele, chama ao sol irmão, à lua irmã, à água irmã e à terra mãe.
E, aproximando-se da própria morte, acrescentou o louvor pela irmã morte corporal:
«Louvado sejas, meu Senhor, pela nossa irmã Morte corporal…» (Cântico das Criaturas, estrofe sobre a morte.)
É impressionante pensar que um homem tão doente ainda conseguia transformar sofrimento em louvor.
Para Francisco, a criação inteira falava de Deus. Tudo era recebido como dom.
Esta visão ensina-nos a contemplar novamente o mundo, a cuidar da criação e a abandonar a ilusão de que somos proprietários absolutos daquilo que Deus colocou nas nossas mãos.
A humildade é saber de Quem vem todo o bem
Os Fioretti contam que Frei Masseo perguntou repetidamente a Francisco por que razão todos o procuravam (Fioretti, capítulo X).
Queria saber por que razão tantas pessoas desejavam seguir um homem que não era poderoso, rico ou considerado particularmente erudito.
Francisco respondeu atribuindo tudo a Deus. Segundo a narrativa, Deus escolhera-o precisamente para que ficasse claro que todo o bem vinha d’Ele e não da criatura.
A humildade permite-nos fazer o bem sem nos apropriarmos da sua origem nem procurarmos toda a atenção para nós.
O Testamento, as Admoestações e o Cântico do Irmão Sol podem ser consultados nas Fontes Franciscanas, disponibilizadas pela Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil.
Oito séculos depois os ensinamentos continuam actuais
Celebrar os 800 anos da Páscoa de São Francisco de Assis é permitir que os seus ensinamentos nos façam novamente algumas perguntas.
Quanto Evangelho existe realmente nas nossas escolhas? De quem ainda evitamos aproximar-nos? De quantas coisas precisamos para ser felizes? Conseguimos permanecer em paz quando somos contrariados? Reconhecemos tudo aquilo que temos como dom de Deus?
O mundo mudou profundamente desde 1226. Continuamos, porém, a precisar de aprender a seguir Cristo, a servir os pobres e a construir a paz nas relações mais próximas.
No Santuário de Cristo Rei, a contemplação do Coração de Jesus ajuda-nos a levar esta reflexão à vida concreta. A fé dá fruto quando o amor que recebemos de Cristo se torna cuidado por quem está ao nosso lado.
Oito séculos depois do seu Trânsito, o melhor modo de recordar Francisco talvez seja fazer aquilo que ele próprio tentou durante toda a vida: começar outra vez a viver o Evangelho.
São Francisco de Assis, rogai por nós!



