Todos os anos, a 30 de setembro, a Igreja celebra a memória de São Jerónimo, sacerdote e Doutor da Igreja. É frequente vê-lo representado com livros, pergaminhos ou uma pena na mão, sinais de uma vida profundamente ligada às Sagradas Escrituras. O seu trabalho marcou de tal forma o cristianismo ocidental que vale a pena perguntar: sem São Jerónimo, leríamos hoje a mesma Bíblia?
A resposta mais correcta seria: sim, leríamos a mesma Palavra de Deus, mas talvez não a tivéssemos recebido da mesma maneira. Jerónimo não escreveu a Bíblia, nem decidiu sozinho quais os livros que fariam parte do cânone. Os textos sagrados já eram lidos e transmitidos pela Igreja muito antes dele. A sua grande missão foi ajudar os cristãos de língua latina a ter acesso a uma tradução mais segura e mais próxima dos textos originais.

Uma missão confiada pela Igreja
Jerónimo nasceu por volta do ano 347 e recebeu uma sólida formação literária. Estudou latim, grego e, mais tarde, hebraico. Em 382, regressou a Roma e tornou-se colaborador próximo do Papa Dâmaso. Foi nesse período que iniciou a revisão das antigas traduções latinas dos Evangelhos e dos Salmos.
Depois da morte do Papa, Jerónimo deixou Roma e acabou por se estabelecer em Belém, em 386. Ali dedicou grande parte da sua vida ao estudo, à oração e à tradução da Escritura. Foi também em Belém que empreendeu a tradução dos livros do Antigo Testamento directamente do hebraico, utilizando os conhecimentos linguísticos e os instrumentos filológicos disponíveis na época.
O resultado deste longo trabalho ficou associado à Vulgata, a versão latina da Bíblia que, ao longo dos séculos, se tornaria a referência do cristianismo ocidental. A sua influência ultrapassou os limites da liturgia e da teologia: a linguagem, a literatura, a arte e a própria cultura europeia foram profundamente marcadas por ela.
O Papa Francisco resumiu esta herança ao escrever, em 2020: «O afeto à Sagrada Escritura, um terno e vivo amor à Palavra de Deus escrita é a herança que São Jerónimo […] deixou à Igreja». A carta apostólica Scripturae Sacrae affectus foi publicada por ocasião dos 1600 anos da morte do santo.
Traduzir a Bíblia é aproximar a Palavra das pessoas
O trabalho de Jerónimo recorda-nos que traduzir a Bíblia é uma tarefa delicada. Não basta trocar uma palavra de uma língua por outra. É preciso compreender a cultura, o contexto, as expressões e o sentido que determinado termo possuía quando foi escrito.
Jerónimo compreendeu esta exigência há mais de quinze séculos. Por isso comparava textos, estudava línguas e procurava regressar às fontes. O seu objectivo era servir a Palavra e torná-la acessível ao povo cristão.
A importância da Vulgata tornou-se tão grande que o Concílio de Trento, no século XVI, reconheceu o seu carácter «autêntico» para o uso da Igreja latina. Séculos mais tarde, depois do Concílio Vaticano II, foi preparada uma nova revisão, a Neovulgata, promulgada por São João Paulo II em 1979.


A Bíblia lida dentro da Igreja
Para São Jerónimo, o estudo das Escrituras nunca esteve separado da fé da Igreja. Ele sabia que a Bíblia foi transmitida pela comunidade dos crentes e deve ser lida com o auxílio do Espírito Santo.
Bento XVI retomou esta convicção na exortação apostólica Verbum Domini: «A Bíblia é o livro da Igreja e, a partir da imanência dela na vida eclesial, brota também a sua verdadeira hermenêutica».
Esta perspectiva ajuda-nos a compreender por que razão Jerónimo continua tão actual. A Bíblia pode ser estudada do ponto de vista histórico, literário ou linguístico, mas para o cristão ela é também Palavra de Deus acolhida na fé, proclamada na liturgia, rezada em comunidade e vivida no quotidiano.
Conhecer as Escrituras para conhecer Cristo
Talvez nenhuma frase resuma tão bem a espiritualidade de São Jerónimo como esta: «Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo». Para ele, conhecer a Bíblia significava conhecer melhor Aquele que está no centro de toda a revelação. Bento XVI recordou precisamente esta afirmação ao apresentar São Jerónimo como um homem cuja vida foi inteiramente dedicada ao estudo da Palavra de Deus.
Noutra das suas cartas, Jerónimo deixou uma imagem ainda mais íntima sobre a oração e a leitura da Palavra: «Se rezas, falas com o Esposo; se lês, é Ele quem te fala».
Aqui encontramos a grande herança espiritual de São Jerónimo. A Bíblia não deveria permanecer fechada numa estante ou aparecer somente durante a Missa. A Escritura foi-nos dada para formar a nossa maneira de pensar, iluminar as nossas decisões e alimentar a nossa relação com Deus.
Sem São Jerónimo leríamos a mesma Bíblia
Provavelmente sim. A Palavra de Deus não dependeu de um único homem para chegar à Igreja. Contudo, sem o seu trabalho, a história da Bíblia no Ocidente teria sido diferente. A sua tradução ajudou gerações inteiras a ler, rezar, pregar e pensar a fé a partir das Escrituras.
Mais de 1600 anos depois da sua morte, São Jerónimo continua a fazer-nos uma provocação muito simples: de pouco vale possuir uma Bíblia se raramente a abrimos.
Celebrar a sua memória pode ser uma oportunidade concreta para recuperar o contacto diário com a Palavra de Deus e o gosto pela leitura espiritual. Ler um Evangelho, meditar alguns versículos, fazer uma Lectio Divina ou simplesmente reservar alguns minutos para escutar o que Deus nos quer dizer através da Escritura.
São Jerónimo passou a vida a aproximar-se da Palavra. O melhor modo de honrar a sua memória talvez seja permitir que essa mesma Palavra se aproxime também de nós.
São Jerónimo, Doutor da Igreja, rogai por nós!



